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» » » » Guerra ao Estado Islâmico: sem fim à vista

O novo inimigo público número 1 de parte do planeta é a combinação perfeita para uma guerra sem fim do Ocidente: são terroristas, possuem um território fixo onde jogar bombas e carregam o termo "islâmico" em seu nome. Mas o que mais está por trás do Estado Islâmico?

Por Igor Carvalho e Vinicius Gomes | 
Foto de capa: Reprodução
Reprodução Revista Fórum - 18/02/2015

Durante os anos de Guerra Fria, um poderoso braço de propaganda do governo norte-americano contra a União Soviética foi a Agência de Informação dos Estados Unidos que, através de suas ondas de rádio, conseguia penetrar na inexpugnável Cortina de Ferro na Europa socialista, levando aos cidadãos daquelas terras “isoladas” as notícias do mundo e um pouco dos valores norte-americanos. Essa organização foi a antecessora da Broadcasting Board of Governors (BBG), mais tarde a agência federal que atualmente supervisiona e financia cinco veículos de comunicação – incluindo a Voz da América e a Rádio Europa Livre, duas das grandes armas na Guerra Fria – e que no último 21 de janeiro empossou Andrew Lack, como seu novo presidente-executivo.


No dia seguinte, o New York Times realizou uma entrevista com Lack, na qual ele listou alguns dos desafios mais imediatos à máquina de propaganda dos EUA. “Nós estamos enfrentando diversos desafios vindos de entidades como o Russia Today (hoje apenas RT), que está aí forçando seu ponto de vista, o Estado Islâmico no Oriente Médio e grupos como o Boko Haram [na Nigéria]. Mas acredito firmemente que essa agência tem um papel a ser desempenhado no enfrentamento desses desafios”.

O fato de o homem que está no comando de uma agência que opera em mais de 50 filiais espalhadas pelo mundo e um estafe de mais de 3,5 mil pessoas, classificar uma agência de notícias internacionais como a RT – que de fato é financiada por Moscou, assim como a Voz da América é financiada por Washington – na mesma categoria dos extremistas do Estado Islâmico e os assassinos do Boko Haram, já diz o suficiente sobre a visão míope do mundo pelos olhos dos governo dos EUA. Outras agências de notícias também já foram alvo de críticas similares pelo BBG, como a gigante árabe Al Jazeera e a CCTV da China. O grande pecado de todas elas? Possuir uma narrativa sobre os fatos do mundo que diferem dos Estados Unidos.

O curioso sobre a fala de Lack, todavia, não é a comparação da RT com terroristas; isso inclusive é uma velha tradição dos EUA, que sempre demoniza seus antagonistas, geralmente comparando-os a outras figuras: o presidente russo Vladimir Putin com Hitler; o sírio Bashar al-Assad; o cubano Raúl Castro e os finados Saddam Hussein e Hugo Chávez, da Venezuela, são apenas alguns exemplos mais recentes. Mas o curioso de verdade é como o novo chefão da BBG encara o Estado Islâmico como um verdadeiro desafio na narrativa sobre o que de fato acontece naquela região entre as fronteiras da Síria e do Iraque, que trouxe o extinto regime político muçulmano do califado de volta à vida no século 21.

Toda a espetacularização do horror infligido pelo Estado Islâmico contra seus reféns possui algo que é quase hollywoodiano. Primeiramente com as decapitações, que nunca eram publicadas em sua íntegra. Mais recentemente, quando cortar cabeças já não rendia mais manchetes, veio o vídeo do piloto jordaniano sendo queimado vivo: a edição, o logo do Estado Islâmico no canto superior, o corte de câmeras para pegar todos os ângulos, a sonoplastia com os gritos, a câmera lenta para fins dramáticos e, por fim, o close-in horrendo que chegou a mostrar sua pele derretida enquanto uma voz sinistra ao fundo alertava o Ocidente de que a guerra continuava.


Outro fator que comprova que a luta entre o mundo “civilizado”, liderado pelos EUA, contra os bárbaros jihadistas, tem como novo fronte a disputa na comunicação, são as reportagens que o Estado Islâmico promove dentro de seu território, relatando desde o cotidiano de seus combatentes até a destruição causada pelos bombardeios estadunidense em seu território. Toda a produção não deixa nada a desejar à norte-americana CNN ou à britânica BBC. De fato, até mesmo o apresentador dos programas é um correspondente internacional profissional: o jornalista John Cantlie, foi sequestrado na Síria em dezembro de 2012 e ressurgiu logo após as primeiras decapitações de James Foley e Steve Sotloff. O britânico estava para ser o próximo executado quando – não se sabe partindo de quem a ordem – surgiu a brilhante ideia de usar um correspondente internacional sequestrado para passar o ponto de vista do Estado Islâmico.

Isso foi algo que, definitivamente, os Estados Unidos não anteciparam. Uma das coisas que se pode especular é como seriam, para o bem ou para o mal, uma cobertura que não a ocidental sobre a guerra no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, no leste da Ucrânia, na Faixa de Gaza; ou quem sabe como seriam relatadas as mais de 4 mil mortes de civis por ataques de drones no Paquistão, Iêmen e Somália. A história dessas vidas tiradas pelos EUA não deixariam de ser resumidas em estatísticas e passariam a ser tão humanizadas como a de James Foley, Steve Sotloff, David Haines e do , Alan Henning, Herve Goudel e piloto jordaniano Moaz al-Kasasbeh?

Uma reportagem de O Globo buscou entender por que o Estado Islâmico mudou seu método de execução, qual era o propósito da divulgação de crueldade pela internet e como enfrentar esse fenômeno do marketing terrorista.

Como não podia deixar de ser, para explicar sobre o extremismo islâmico, ninguém melhor que um especialista israelense em contraterrorismo e marketing estratégico. Anat Hochman-Marom, que afirma ter estudado milhares de mensagens de jihadistas para entender sua influência, respondeu o óbvio: “cortar cabeças não choca mais ninguém” e o mundo se tornou um “playground da luta entre al-Qaeda e Estado Islâmico”. Ou seja, a população mundial inteira estaria a mercê desses dois grupos que se comportam como valentões para ver quem é mais durão que o outro.

Uma racionalização do caos atual no Oriente Médio por demais simplista, até para um especialista israelense em contraterrorismo. Por ora, tudo o que se sabe sobre o Estado Islâmico é que eles são os inimigos e, contra eles, só há uma maneira de lidar: a boa e velha guerra.

Um produto da Arábia Saudita e dos Estados Unidos para o mundo
Desde parte do mundo concordou com os EUA e nomeou o Estado Islâmico como o novo mal personificado na Terra, as novidades nos horrores relatados pela mídia ocidental a respeito desse inimigo público nº 1 não param de surgir, a última que mais chocou o mundo envolveu crianças.

Segundo o tabloide britânico Daily Mail, os militantes do Estado Islâmico estão vendendo crianças iraquianas raptadas em mercado aberto como escravas sexuais. “Crianças de minorias [religiosas] estão sendo marcadas com etiquetas de preço para serem vendidas no mercado”, contou Winters. A maldade do Estado Islâmico não para aí: as crianças também estariam sendo usadas como “homens-bomba” crucificadas, enterradas vivas, usadas como escudo humano para proteger instalações – como supostamente as crianças palestinas fizeram em Gaza contra os ataques de Israel – e, na melhor das hipóteses, elas são simplesmente assassinadas.

Para Thomas Farran, especialista em História e Política Árabe Moderna e editor do blogue Arabizando, a construção de um inimigo comum precede em muito a "Guerra contra o Terror" inaugurada por George W. Bush, e faz parte de uma estratégia que inerentemente pode ser traçada à ideologia imperialista e em sua. A instabilidade que há anos existe na região, acentuando ainda mais pela invasão do Iraque em 2003 e tudo o que se segui desde então, é o chamado blowback, termo em inglês que se traduz como "tiro pela culatra". Na realidade, a própria existência do Estado Islâmico é um exemplo claro desse "tiro pela culatra".

A história mais contada sobre eles diz que o velho ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria), formado por insurgentes sunitas que controlavam grandes áreas tanto do Iraque quanto da Síria, simplificou seu nome apenas para Estado Islâmico e anunciou o estabelecimento de um califado ao longo dos dois países. Em agosto de 2014, o grupo declarou seu chefe, Abu Bakr al-Baghdadi, o “califa e líder de todos os muçulmanos” e pediu que outro grupos jurassem lealdade à causa do Estado Islâmico. Este domingo também marcou o primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos. O novo califado – regime político islâmico abolido há mais de 90 anos por Kemal Atatürk, o primeiro presidente da Turquia – se estendia de Aleppo, no norte da Síria, até a província de Diyala, no leste do Iraque, e seu grande objetivo seria formar um governo único, sem fronteiras, do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico, como existiu séculos atrás. Tal regime era efetivamente uma república islâmica, tendo apenas um líder (espiritual e político) e desconsidera qualquer fronteira geográfica.

Porém, a história por trás da história é mais perturbadora, ao menos para o Ocidente.

O "Estado Islâmico" na Síria foi tido durante um bom tempo como parte legitima da luta síria contra o regime do ditador Assad, logo como parte integrante do plano de desestabilização do país, o que fez com que os EUA tivessem alguma proximidade com o grupo, assim como seus aliados regionais, notadamente os países do Golfo encabeçados pela Arábia Saudita – esta mais preocupada pela guerra ideológica travada com o Irã e com o Qatar pela influência regional. Já no Iraque, Farran explica que o Estado Islâmico teve a sua função reaproximadora do governo iraquiano para com a administração de Obama, já que essa é uma relação que há muito vem se desgastando, principalmente pela falta de cumprimento com os compromissos econômicos e militares por parte parte de Washington. Há de se entender que a balcanização que acontece no Iraque é um resultado deliberado das políticas norte-americanas pós-invasão.

"Não é por mero acaso que os maiores financiadores privados do EI vinham de países do Golfo nomeadamente a Arábia Saudita, e estados clientes como Kuwait e Emirados Árabes Unido", afirma Farran. " O Estado Islâmico, não apenas conta com o apoio mas também com a guarita ideológica da Casa de Saud, visto que a bandeira carregada pelo grupo é uma criação saudita (no caso a escola wahhabi, dentro da doutrina salafista), e que Riad encontrou como forma de combater os avanços de grupos associados à Irmandade Muçulmana (representante de uma vertente pan-islamista), apoiada pelo Qatar, e movimentos de resistência xiita, apoiados pelo Irã".

Robert Fisk, renomado estudioso do mundo árabe, já ponderava sobre o peso da Arábia Saudita no caos e as vistas grossas que os EUA faziam a respeito, enquanto o Estado Islâmico tomava diversas cidades-chave no Iraque. "Sob Obama, a Arábia Saudita continuará a ser tratada como um país amigavelmente 'moderado' no mundo árabe, mesmo com a família real tendo sido fundada sob as convicções wahhabistas do mesmo pessoal do Isis (Estado Islâmico) – e mesmo com seus milhões de dólares armando esses mesmos combatentes. Assim sendo, o poder saudita tanto alimenta o monstro nos desertos do Iraque e da Síria, quanto se alinha com poderes ocidentais que os protegem." Recentemente, Fórum publicou uma matéria mostrando que 95% dos crimes e punições na Arábia Saudita e pelo Estado Islâmico são idênticos.

Segundo Patrick Cockburn, a chamada “guerra ao terror” falhou porque não teve como alvo os movimentos jihadistas como um todo e, acima de tudo, não colocou como alvo a Arábia Saudita e também o Paquistão, os dois países que promoveram o jihadismo como um credo e um movimento. "Os EUA não o fizeram porque ambos eram importantes aliados seus. A Arábia Saudita é um enorme mercado para as armas norte-americanas e os sauditas cultivaram, e em ocasiões compraram, a influência de membros importantes da estrutura política nos EUA."

Dois lados de uma mesma moeda?
Na última quarta-feira (11), o presidente americano, Barack Obama, enviou ao Congresso um documento pedindo autorização para usar sua força militar contra o Estado Islâmico. Em linhas gerais, significa a formalização da guerra ilegal – tanto pelas leis internacionais como pela própria Constituição dos EUA – que já vem sendo conduzida em terras sírias e iraquianas desde o ano passado.
Bradley Cooper em cena do filme "Sniper Americano" (Divulgação)

No momento em que os EUA acirram as críticas ao Estado Islâmico e articulam uma expansão de ataque ao grupo muçulmano, o diretor Clint Eastwood lança o filme Atirador Americano, que conta a história do franco-atirador Chris Kyle, considerado o “mais letal” assassino de guerra norte-americano. A produção, indicada a seis Oscars, é uma ode ao atirador que se gabava de ter provocado 255 mortes. Porém, de acordo com a contagem oficial da Marinha, onde Chris Kyle serviu no agrupamento de elite “Navy Seal”, o americano teria assassinado 160 pessoas durante suas quatro missões no Iraque, entre 1999 e 2009. O filme elevou o sentimento de patriotismo nos EUA e Kyle é tratado como “herói nacional” inclusive pelo governador do Texas, o conservador Greg Abbott, que quer criar o “Dia Chris Kyle” no estado.

Todas as homenagens e os discursos apaixonados em defesa do letal atirador, contrasta com o discurso de defesa da vida quando o assunto é o Estado Islâmico. Os decapitadores do EI e Chris Kyle podem ter mais em comum do que a coleção de assassinatos. O discurso em defesa dos crimes.

Em sua autobiografia, retratada no filme de Clint Eastwood, Kyle defende constantemente as mortes que provoca, como se fosse uma forma de proteger seus conterrâneos em solo americano. “Você quer que esses desgraçados vão para San Diego ou Nova Iorque? Protegemos mais do que essa terra aqui (Iraque)”, afirma o personagem de Kyle, interpretado pelo ator Bradley Cooper, em diálogo do filme. Um ano antes de ser assassinado por um veterano de guerra, Chris Kyle deu uma entrevista à Veja, quando estava lançando sua autobiografia Sniper Americano. “Gostaria de ter matado mais, mas não pelo ato de matar. Sinto que, a cada pessoa que matava, estava salvando outra vida”, afirmou o atirador, reafirmando a defesa dos assassinatos que cometeu.

Antes de decapitar o jornalista americano James Foley, um integrante do Estado Islâmico usa um discurso simétrico ao de Chris Kyle. “Qualquer agressão contra o Estado Islâmico é uma agressão contra os muçulmanos, de todos os tipos, que aceitaram o califado islâmico e sua liderança.” No discurso, e nas ações, Estado Islâmico e o Estados Unidos podem ter mais em comum do que supõe seus encontros bélicos.

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